ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
ESCLEROSE LATERAL AMIOTRÓFICA
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  Psicologia

 

ELE SE RECUSA A USAR A CADEIRA DE RODAS. E AGORA?

 

Vania de Castro
Psicóloga
 CRP 06 15.110

 

É provável que você cuidador, familiar ou profissional já tenha passado por uma situação assim. O paciente pode  recusar-se a fazer uso da cadeira de rodas por vários motivos, no entanto, ele deve ser ouvido nas suas dúvidas, incertezas, medos e justificativas.

 

O momento certo de passar a usar a cadeira de rodas deve ser resultado de uma decisão conjunta: paciente, familiares e profissionais. Evidentemente que, caberá ao paciente tomar a decisão.

 

Profissionais, familiares e cuidadores querem, muitas vezes, proteger a pessoa com esclerose lateral amiotrófica/doença do neurônio motor (ELA/DNM) e, por isso oferecem a cadeira de rodas como uma solução, que na verdade é uma solução, porém alguns pacientes necessitam de um tempo maior para conseguir aceitar fazer uso da cadeira de rodas. Lembre-se: é muito importante conversar com a pessoa que usará a cadeira, ouvi-la, compreendê-la nessa etapa de evolução da doença que a cadeira de rodas representa. No entanto, expressar a importância para o cuidador, também, é necessário.  Não é algo fácil de propor e, por outro lado, também, não é fácil decidir usá-la.

 

É interessante lembrar que usar a cadeira de rodas tem um significado extremamente importante do ponto de vista psicológico. São mudanças necessárias cujo principal motivo é o avanço da doença e a perda de funções que fizeram parte da vida da pessoa desde quando começou a andar. Por isso, é imprescindível compreender a resistência que a pessoa pode ter para decidir quando usar a cadeira de rodas.

 

Imagine-se na situação: você sempre andou com as suas pernas e pés. A sua liberdade de ir e vir esteve preservada.  Como será receber uma imposição de andar sob quatro rodas e ser levado de lá para cá por um cuidador ou familiar? Não há outra possibilidade. Pense e imagine-se na situação. O fato de não existir outra opção não significa que será fácil e simples aceitá-la. Trata-se de olhar o mundo pela ótica da pessoa que está perdendo a capacidade de ir e vir, por si, para compreendê-la na sua essência.

 

Vejamos então psicologicamente como esta perda poderá ser sentida: você nasceu, engatinhou, andou, correu e cresceu. Tornou-se adulto. Comprou um carro, ou uma bicicleta ou uma moto. Movimenta-se com facilidade para todos os lados. Como você sente-se ao saber que não andará mais com as próprias pernas? Que dependerá de alguém para levá-lo onde quiser ir? Então, aceitar fazer uso da cadeira de rodas significa conscientizar-se e aceitar a perda do ir e vir por si só. Aceitar a perda de algo que você aprendeu, não esqueceu e até fazia sem pensar. Agora terá muito tempo para pensar o que significa não andar e sofrerá as consequências dessa impossibilidade.

 

É necessário, portanto, compreender as razões implícitas no comportamento de não aceitação da cadeira de rodas. Ouça o que o paciente tem a lhe dizer. Converse com ele sobre o assunto. Ajude-o a refletir acerca dos possíveis benefícios, como por exemplo, locomover-se com segurança e sem gasto de energia.

 

Por mais óbvio que possa parecer, a tomada de decisão sobre o uso da cadeira de rodas, pode tornar-se um grande obstáculo na vida do paciente. Procure compreendê-lo, respeitá-lo, colocar-se no lugar dele e ajudá-lo nessa etapa, porque o impacto emocional provocado pela mudança é muito grande e o ser humano se conhece em movimento desde o útero materno. Perder os movimentos e a força nas pernas e ter que usar a cadeira de rodas para a sua locomoção, é quase um sacrilégio.

 

O cuidador principal e os familiares também sofrem muito nesta fase. Sofrem pela resistência do paciente ao uso da cadeira de rodas, sofrem por ver as perdas   avolumando-se, sofrem por ver a pessoa com ELA/DNM diferente do que sempre foi, sofrem por ver as quedas e a insistência para andar por si só.

 

O sofrimento resultante do processo de adoecimento é real para todos e gera estresse, no entanto, é preciso desenvolver recursos de enfrentamento das situações que se apresentam e até então eram desconhecidas.

 

No próximo texto trarei o conceito de empatia segundo a abordagem desenvolvida pelo psicólogo americano, Carl Rogers(1902-1987), uma das abordagens da psicologia que me identifico. Assim, acredito que facilitará a compreensão da resistência no uso da cadeira de rodas e outras situações enfrentadas por pessoas com ELA/DNM.

 

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